quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

"Suas crianças derrubando reis"

Eu não sou nada boa de perceber panoramas, mas o que me parece é que esse pessoal que hoje tem seus 15/ 16 anos ou menos vem com uma outra força, um outro tipo de força. 

São jovens que têm acesso à informação de N fontes, que podem ouvir, ler e comparar, que escolhem a cultura que consomem. São jovens que não tem sua alma sugada pela TV aberta durante suas horas de ócio. Aliás, são jovens que basicamente desconhecem o ócio. 

No tempo em que "nada produzem" (estudando e/ou trabalhando) estão esmerilhando o MUNDO pela internet: web, deep web, sei-lá-qual web. 

Acredito que esses jovens vão causar uma grande inversão nas coisas. Não serão facilmente manipuláveis, mas serão fortemente organizáveis. O mundo dos "adultos" inevitavelmente vai RUIR diante da força desses jovens. Espero que daí saiam coisas muito muito boas para a humanidade, porque, convenhamos, tá foda...

Acho que esses jovens vão poder cantar com uma propriedade nunca experimentada por qualquer geração anterior os versos do Renato Russo:

"Agora chegou a nossa vez!
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês". 

Que assim seja! E que seja lindo!
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"A revolução vai ser mulher, negra e terá 16 anos. Se preparem.", Giovanna Dealtry (via Facebook).


foto: Marlene Bergamo

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Carta de despedida - fim do estágio

Querida equipe,

hoje chega meu dia de me despedir desse lugar tão incrível que é este ambulatório. Como não sou muito boa em falar, optei por escrever essa carta.

Lembro-me muito bem da sensação de estar aqui pela primeira vez. Eu tinha acabado de voltar de uma experiência nova, um intercâmbio de sete meses, experiência essa que me rendeu horas, dias, semanas de muita reflexão, de muito pensar e repensar a vida, de muito silêncio, de muitos questionamentos. Foi uma experiência tão intensa que precisei buscar auxílio psicológico lá e ter a estranha experiência de ser atendida por uma psicóloga sueca em inglês. De qualquer forma, aquela vivência me proporcionou perceber com muita clareza – a clareza de quem sente na própria carne – a importância de ter quem nos acolha, quem nos ajude, quando nossa cabeça passa a ser nossa maior inimiga.

De volta ao Brasil, uma semana depois, eu aterrissava de paraquedas neste Hospital Psiquiátrico, com todo o folclore de medos, preconceitos e dúvidas que são atribuídos a uma instituição assim. 

Foi uma das épocas mais difíceis da minha vida, sem sombra de dúvida. Em vários momentos, fiquei paralisada, escondida na sala dos técnicos, contando os minutos. Os pacientes me assustavam, o trabalho me apavorava – “Como eu vou dar conta disso?”, eu pensava, na iminência de desistir. O tamanho da responsabilidade desse trabalho, somado ao tamanho da complexidade, me imobilizavam muitas vezes, e hoje vejo com muito pesar as inúmeras oportunidades de aprender que deixei passar por receio de fazer uma pergunta boba, de trazer uma dúvida inconveniente, de arriscar.

Acho que isso aconteceu porque levei um bom tempo para acreditar que estava em um lugar muito diferente daquele dos meus medos e das minhas fantasias. Eu estava em um lugar que esfregava na minha cara que gente louca é só gente, com quem a gente conversa, ri, se emociona, se aborrece e aprende. Aprendi que louco conta dinheiro, louco canta, louco desenha, louco faz piada, faz brigadeiro, faz queixa, louco namora. Nada mais louco para mim do que descobrir que eu aprenderia com a loucura! Como dar lugar para isso? Foi um trabalho!

Outra grande surpresa: deparar-me com uma equipe de pessoas que abraçam o que fazem, que fazem o que fazem com um nível de responsabilidade e comprometimento que eu nunca imaginei encontrar aqui, num hospício, numa instituição pública. Nas reuniões de equipe, cada paciente é sua história, tem nome, tem nome de familiares, tem nome de referências, tem medicação, tem comportamento habitual e atitudes estranhas, detectadas por um olhar que traz um nível de cuidado que me desconcertava. “Não é possível! Eu vim aqui para não gostar, para discordar, para me indignar! Como volto agora para a universidade dizendo que, dentro de um Hospital Psiquiátrico, o cuidado psicossocial é real, e não está num quadro de regras no mural? Está dentro de cada um que, apesar dos MUITOS pesares, tomam para si a responsabilidade do que fazem”. Uma saia justa.

Num dado momento, ficou difícil demais. Eu não quis desistir, naquela época meu vínculo com o ambulatório já era muito forte, mas já não era mais possível para mim. Foi um momento em que todas as reviravoltas subjetivas que eu trouxe do intercâmbio se somaram a todas as reviravoltas subjetivas que as vivências daqui me trouxeram e eu quebrei. Recebi muito apoio da então coordenadora do ambulatório e do meu supervisor da universidade para não desistir. Eles me apoiaram, deixaram eu dar uma enlouquecidinha, respirar fundo e voltar. E voltei. E aqui estavam a equipe e os pacientes que, sem nem saber, me receberam pela segunda vez com uma generosidade que foi determinante para que eu tivesse coragem de prosseguir. 

Aprendi tanto aqui que teria dificuldades de apontar um ou outro aspecto. Aprendi sobre loucura, sobre trabalho em equipe, sobre respeito ao ser humano, sobre cuidado, escuta, generosidade, sobre afeto, paciência, sobre sofrimento, sobre sofrer, sobre lidar com o inesperado, sobre aceitar falhas, sobre dar o melhor de si, sobre fazer o que é possível. Aprendi que a melhor escolha que eu poderia ter feito na minha vida foi a que fiz há 4 anos e meio, quando decidi largar toda uma carreira e me tornar caloura de Psicologia, mergulhando de cabeça em uma nova etapa de vida. Foi muito difícil, mas hoje vejo o quanto valeu.

Vou embora com meu coração apertado. Vou querendo ficar, querendo voltar. Quero agradecer a cada um dos membros dessa equipe, inclusive aqueles que já não estão mais por aqui, por me receberem e me ajudarem a construir essa etapa tão especial da minha vida. Quero agradecer a cada paciente que me abriu um universo diante dos olhos, me ensinando a reeducar minha percepção do mundo, das coisas, das pessoas, de mim mesma. Como eu disse no início, falar é tarefa difícil para mim, então possivelmente eu nunca tenha conseguido comunicar a todos a importância desse lugar e dessas pessoas para mim. Aqui, tive vivências muito ricas e intensas que agora são parte de quem eu sou, ou melhor, de quem venho me tornando desde sempre e até sempre. Obrigada pela generosidade de cada um deste ambulatório, técnicos e pacientes, por me ajudarem e acompanharem nesse aprendizado para toda a vida.

Para encerrar, trago uma breve história: Uma vez, conversando com uma pessoa que não é da área da Psicologia, nem da Saúde Mental e nem mesmo da Saúde, ouvi: “Mas você não se sente mal por seu trabalho ser fazer as pessoas se adequarem ao que é considerado normal? Você não acha errado adestrar as pessoas?”. Por um momento, fiquei muito indignada com aquela pergunta, mas, logo em seguida, se passou um filme na minha cabeça e lembrei de como eu via a Psicologia – e mais tarde a Saúde Mental – quando eu nada conhecia. A indignação passou, mas me vi com muita dificuldade em espremer um universo inteiro de conhecimentos e vivências numa resposta para dar àquela pessoa ali, naquele momento. Lembrei de outra coisa incrível que aprendi aqui: a comunicação também está aquém e além das palavras, e intuição não é magia de livro de autoajuda, é receber com abertura e coragem o não dito. Então, limitei-me a responder, de coração aberto numa franqueza que possivelmente não foi percebida de todo: “O que eu faço lá não tem absolutamente nada a ver com adestrar pessoas. Mas eu não vejo como explicar a você o que eu faço lá. O que eu posso te dizer é que quanto mais eu vou lá, menos eu sei limitar em conceitos o que eu faço, mas mais eu sei fazer. E a sensação é maravilhosa”.

Muito obrigada por tudo.

14 de setembro de 2015

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Sintaxe de trombone...

Eu só queria saber quando é que a vida vai parar 
de falar feito a professora do Charlie Brown comigo.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Eu sempre acreditei que...

Eu sempre acreditei que eu ansiasse pelas respostas, 
mas começo a desconfiar que eu gozo dos serás.

sábado, 13 de junho de 2015

Dois tópicos sobre o viver

Dois tópicos sobre o viver:
- sustentar rótulos compulsórios;
- malabarismo perpétuo de identidades atribuídas.

Por mais ojeriza...

Por mais ojeriza que se tenha aos imediatismos do senso comum, é necessário que haja uma mínima adesão, pelo menos para que ele possa ser reconhecido. A partir daí, sim, pode-se fazer o que se acredita ser eticamente coerente.