quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O que em mim sente está...

“Ela canta, pobre ceifeira,
julgando-se feliz talvez;
canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
de alegre e anônima viuvez,

Ondula como um canto de ave
no ar limpo como um limiar,
e há curvas no enredo suave
do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
na sua voz há o campo e a lida.
E canta como se tivesse
mais razões para cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente está pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
e atua consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!”


Fernando Pessoa.

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