quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Humanidade X humano...

... dia desses eu conversava com um rapaz ébrio. O rapaz era nitidamente inteligente e, por indícios no que dizia, via-se que tinha um conhecimento de cultura livresca acima do que comumente se vê por aí. Eu conversava meio que sem conversar, com aquela paciência espe(a)cial a que um ébrio desconhecido se faz merecedor. Mas, ao mesmo tempo, esses tais indícios animaram minha curiosidade, e me vinha a vontade de ouvir um pouco mais do que ele dizia.

Como bem prevê um professor meu, a conversa entre dois desconhecidos inevitavelmente envereda pela senda do "onde eu moro", "quando eu era criança" e "meu pai e minha mãe são". Eu poderia, nesse momento, acrescentar o dado por ele fornecido, de que a mãe dele é psicóloga, mas não vou fazer isso para evitar qualquer tentação determinista e clichezenta.

Aí veio aquela frase que eu preferia não ter ouvido: "Vocês, psicólogos, adoram analisar as pessoas, mas detestam as pessoas". Sorriso amarelo. Preferia não ter ouvido, porque, se por um lado ele estava redondamente enganado, por outro, ele estava absolutamente certo. O limite dessa relação sujeito-sujeito ou sujeito-objeto é irreversivelmente impalpável e efêmera. E se vê de tudo: a verdade é essa! 

Chega, então, aquele momento em que o abismo olha para dentro de você¹ e a certeza se esfarela toda. E será que o que eu abomino hoje é o reflexo que vou enxergar no espelho amanhã? E será que se eu olhar, eu vejo? E atualmente, com que olhos eu olho? Boladona em mim mesma, um turbilhão de pensamentos amalgamados me dificultou a respiração e passei dias digerindo essa invasão.

Algum tempo depois, durante a leitura de Os irmãos Karamázov, deparo-me com o seguinte trecho - uma conversa entre uma senhora e um líder religioso (stárietz), ao qual foi consultar em busca de aconselhamento:

“(...)

– É tal qual me dizia um médico, aliás, faz muito tempo – observou o stárietz. – Era um homem já entrado em anos e, sem nenhuma dúvida, inteligente. Falava com a mesma franqueza que a senhora, embora em tom de brincadeira, mas de uma brincadeira dorida; eu, dizia ele, amo a humanidade, mas me admiro de mim mesmo; quanto mais amo a humanidade em geral, menos amo os homens em particular, ou seja, em separado, como pessoas isoladas. Em meus sonhos, dizia ele, não raro chegava a intentos apaixonados de servir à humanidade e é até possível que me deixasse crucificar em benefício dos homens se de repente isso se fizesse de algum modo necessário, mas, não obstante, não consigo passar dois dias com ninguém num quarto, o que sei por experiência. Mal a pessoa se aproxima de mim, e eis que sua personalidade já esmaga meu amor-próprio e tolhe minha liberdade. Em vinte e quatro horas posso odiar até o melhor dos homens: este por demorar muito a almoçar, aquele por estar resfriado e não parar de assoar o nariz. Eu, dizia, viro inimigo das pessoas mal elas roçam em mim. Em compensação, sempre acontecia que quanto mais eu odiava os homens em particular, mais ardente se tornava meu amor pela humanidade em geral.

– Então o que fazer? Neste caso, o que fazer? É preciso cair em desespero?

– Não, porque já basta a sua aflição. Faça o que puder, e isso lhe será creditado. A senhora já fez muito, pois conseguiu compreender a si mesma de forma profunda e sincera (...)” [grifo meu].
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Eu, Aline, agradeço ao stárietz pela redenção, mas prefiro (?) continuar com a angústia de não saber como alguém se torna o que é². E, sabe-se lá por quanto tempo, sigo desperdiçando minha energia ao tentar vigiar o voo da mosca³.
... e não foi feito mesmo para se entender...

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¹ "Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não se tornar também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você." - Genealogia da moral, F. Nietzsche.
² Ecce Homo: como alguém se torna o que é, F. Nietzsche.
³ "A velocidade é a elegância do pensamento, que troça da imbecilidade, pesada e lenta. A inteligência pensa e diz o inesperado, considera a mosca e seu voo. Um imbecil define-se pela previsibilidade" - Diálogo sobre a ciência, a cultura e o tempo, Michel Serres.

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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O que parte o coração...

Dia desses eu pensava sobre a música Fidelity, da Regina Spektor, e me perguntava o porquê desse título, uma vez que viver a (minha) vida me ensinou o peso da palavra fidelidade, e como ela pode ser usada de forma mais terrorista do que qualquer tática talibã.
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Imediatamente pensamos na fidelidade que devemos ao outro e tamanho é o peso que ela tem, sendo mais importante do que qualquer medida de felicidade ou satisfação. E ainda que demore um pouco, acaba-se por descobrir que se venera um santo de pés de barro, ou que se tem medo do curupira.
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É na hora em que os mitos se dissipam que percebemos finalmente que a única fidelidade pela qual vale a pena sacrificar tudo é aquela que se deve ter consigo mesmo. Pena que tal clareza de visão seja tão efêmera, tão susceptível às idas e vindas dos medos... Mas não é disso que quero tratar. Voltemos.
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Isso tudo eu pensei a partir dessa música, porque, no final das contas, ela fala justamente de uma auto-fidelidade que se mantém ao longo de toda uma trajetória: o medo de amar; proteger o próprio coração com um arsenal coletado no estar-no-mundo (a ponto de esse arsenal praticamente ganhar voz própria e engolir a subjetividade); a hipótese de não se ter aceitado o risco e em que medida isso respaldaria tragicamente tudo o que foi temido até então; o distrair-se a si mesmo do arrebatamento; o conselho óbvio dos amigos que dizem o que se quer escutar. Em suma: o dilema eterno entre o esmagamento da segurança monocromática e o apetitoso risco da explosão de cores imprevisíveis (e que já vivem em fantasia).
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E a parte que, na minha opinião, é a mais interessante:
"It breaks my heart when it breaks my heart".
É aquela imensa vontade que temos de estarmos errados nas nossas previsões pessimistas; vontade essa tão grande que quase as converte em previsões otimistas. E vêm os fatos rasgar essa fantasia, trazendo um amargo desapontamento por nos termos desapontado, ainda que estivéssemos a par das probabilidades. Isso vale para relacionamentos amorosos, amizades, carreira, família, sonhos, e tudo mais que nos faz nós.
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Nossa auto-fidelidade segue cambaleante nessa corda bamba, equilibrando-se entre a vontade de que dessa vez dê certo, a certeza de que não vai dar, a raiva do próprio determinismo, a vontade de superá-lo, a frustração da susceptibilidade aos acasos, a vontade de crença numa ordem subjacente a tudo, e por aí vai... Nesse pensamento abismal, somos engolidos. Já não sabemos a qual eu de nós queremos ou devemos prestar maior fidelidade.
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Mesmo não sendo mais crianças, estamos sempre esperando que a mágica nos redima da crueza do mundo das objetividades, e ficamos de coração partido quando o mundo insiste em partir nosso coração. Queríamos as cores e as certezas. E queríamos que isso não nos matasse nem de medo, nem de tédio. Eternas crianças de nós mesmos.