terça-feira, 14 de agosto de 2012

"Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti"...

   Hoje eu me peguei pensando sobre a densidade das almas, ou melhor, dos espíritos - simplesmente porque essa palavra me agrada mais pelo uso que dela fazem os franceses.
   E é grande a fortuna daquele que nasce com a riqueza de espírito, que traz em si as múltiplas possibilidades de tudo e a capacidade de se desdobrar e redobrar de um milhão de modos diferentes ao sabor dos ventos do acaso.
   Mas quando digo isso, digo sem nenhuma certeza. Porque esse espírito de incontáveis camadas e dobras é denso e, em casos não raros, pesa, como se devesse obrigações às leis da física, assim como o deve essa minha analogia de improviso.
   E a grande fortuna se contrapõe à noção de boa fortuna. Na dança dos afixos, o espírito fica com cor de infortúnio, e não voa, mas se arrasta, e derrapa, e deixa-se enlear em senãos e poréns que, acumulados, são obstáculo invencível.
   Como consequência quase certa vem o atrapalhar-se em si mesmo e a sensação de não estar nunca em lugar nenhum, nem naquele em que o satélite diz que se está; nem naquele do qual a fotografia é evidência. Não se está em lugar nenhum porque não há saída ou desvio da barulheira que ensurdece de dentro para fora.
   É o páthos da vida poema-em-prosa daquele que não dá conta de si; muito menos de si no mundo.
   E para fechar esse pensamento, cito Dostoiévski, como quem aponta sem dedo:

"[...] não só o excêntrico nem sempre é uma particularidade e um caso isolado, como, ao contrário, vez por outra acontece de ser justo ele, talvez, que traz em si a medula do todo, enquanto os demais viventes de sua época - todos, movidos por algum vento estranho, dele estão temporariamente afastados sabe-se lá por que razão".
F. Dostoiévski - Os irmãos Karamázov
*
*
*
"Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti" 
Álvaro de Campos - A passagem das horas.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Nietzscheando (VI)...


Hoje vamos, com Nietzsche, nos indagar sobre a possibilidade de domesticação do homem.
É interessante notar que, nessa linha de raciocínio, pode-se substituir a ação exercida pela Igreja por algum outro pseudópodo de alguma outra Instituição Total* que lhe convier.
.
“(...) Sempre se quis ‘melhorar’ os homens: sobretudo a isso chamava-se moral. Mas sob a mesma palavra se escondem as tendências mais diversas. Tanto o amansamento da besta-homem como o cultivo de uma determinada espécie de homem foram chamados de ‘melhora’: somente esses termos zoológicos exprimem realidades – realidades, é certo, das quais o típico ‘melhorador’, o sacerdote, nada sabe – nada quer saber... Chamar a domesticação de um animal sua ‘melhora’ é, a nossos ouvidos, quase uma piada. Quem sabe o que acontece nas ménageries duvida que a besta seja ali ‘melhorada’. Ela é enfraquecida, tornada menos nociva; mediante o depressivo afeto do medo, mediante dor, fome, feridas, ela se torna uma besta doentia. – Não é diferente com o homem domado, que o sacerdote ‘melhorou’. Na Alta Idade Média, quando, de fato, a Igreja era sobretudo uma ménagerie, os mais belos exemplares da ‘besta loura’ eram caçados em toda parte – foram ‘melhorados’, por exemplo, os nobres germanos. Mas que aparência tinha depois esse germano ‘melhorado’, conquistado para o claustro? A de uma caricatura de homem, de um aborto: tornara-se um ‘pecador’, estava numa jaula, tinham-no encerrado entre conceitos terríveis... Ali jazia ele, doente, miserável, malevolente consigo mesmo; cheio de ódio para com os impulsos à vida, cheio de suspeita de tudo que ainda era forte e feliz. Em suma, um ‘cristão’... Em termos fisiológicos: na luta contra a besta, tornar doente pode ser o único meio de enfraquecê-la. Isso compreendeu a Igreja: ela estragou o ser humano, ela o debilitou – mas reivindicou tê-lo ‘melhorado’...”.
- Crepúsculo dos Ídolos - VII, 2.
.
.
.
*cf. GOFFMAN, E. Manicômios, prisões e conventos.