domingo, 19 de fevereiro de 2012

Atendendo aos últimos desejos...

Hoje é dia de ouvir Noel Rosa e sentir aquela pontada na alma que deixa a gente desnorteado em si mesmo, sem saber direito para onde olhar, para onde ir. Meio helpless-sem-tradução.


Último Desejo 

Nosso amor que eu não esqueço
E que teve o seu começo
Numa festa de São João
Morre hoje sem foguete
Sem retrato e sem bilhete
Sem luar, sem violão
Perto de você me calo
Tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero o seu beijo
Mas meu último desejo
Você não pode negar
Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação
Às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é o botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Raul e Campos em lição peripatética...

E então eu penso que fazer uma boa leitura das coisas também significa - e muito - a capacidade de lermos as coisas que se leem, independente de acordo espaço-temporal, porque isso é pré-requisito de ciência experimental.

Eu, que gosto à beça de Fernando Pessoa, principalmente quando cavalo de Álvaro de Campos, cheguei a ter palpitações quando me dei conta dessa leitura poética-musical, que já ia à deriva há tantos anos na minha memória, sem nunca aportar e se pronunciar.

Eu já tinha publicado isso aqui, mas nos longíquos anos de 2009, quando eu ainda não queria mostrar o que eu escrevia. Agora que as coisas andam diferentes, decidi soprar a poeira desse post e deixá-lo arejar e tomar um pouco de sol. E faço isso por amor à música-poesia, que é só como eu sei viver.

Eis o encontro:

Vilegiatura

O sossego da noite, na vilegiatura no alto;
O sossego, que mais aprofunda
O ladrar esparso dos cães de guarda na noite;
O silêncio, que mais se acentua,
Porque zumbe ou murmura uma coisa nenhuma no escuro ...

Ah, a opressão de tudo isto!
Oprime como ser feliz!
Que vida idílica, se fosse outra pessoa que a tivesse
Com o zumbido ou murmúrio monótono de nada
Sob o céu sardento de estrelas,
Com o ladrar dos cães polvilhando o sossego de tudo!

Vim para aqui repousar,
Mas esqueci-me de me deixar lá em casa,
Trouxe comigo o espinho essencial de ser consciente,
A vaga náusea, a doença incerta, de me sentir.

Sempre esta inquietação mordida aos bocados
Como pão ralo escuro, que se esfarela caindo.
Sempre este mal-estar tomado aos maus haustos
Como um vinho de bêbado quando nem a náusea obsta.

Sempre, sempre, sempre
Este defeito da circulação na própria alma,
Esta lipotimia das sensações,
Isto...
(Tuas mãos esguias, um pouco pálidas, um pouco minhas,
Estavam naquele dia quietas pelo teu regaço de sentada,
Como e onde a tesoira e o ideal de uma outra.
Cismavas, olhando-me, como se eu fosse o espaço.
Recordo para ter em que pensar, sem pensar.
De repente, num meio suspiro, interrompeste o que estavas sendo.
Olhaste conscientemente para mim, e disseste:
"Tenho pena que todos os dias não sejam assim" —
Assim, como aquele dia que não fora nada ...

Ah, não sabias,
Felizmente não sabias,
Que a pena é todos os dias serem assim, assim:
Que o mal é que, feliz ou infeliz,
A alma goza ou sofre o íntimo tédio de tudo,
Consciente ou inconscientemente,
Pensando ou por pensar
Que a pena é essa ...
Lembro fotograficamente as tuas mãos paradas,
Molemente estendidas.
Lembro-me, neste momento, mais delas do que de ti.
Que será feito de ti?
Sei que, no formidável algures da vida,
Casaste.
Creio que és mãe.
Deves ser feliz.
Por que o não haverias de ser?
Só por maldade...
Sim, seria injusto...
Injusto?
(Era um dia de sol pelos campos e eu dormitava, sorrindo.)

... ... ...

A vida...
Branco ou tinto, é o mesmo: é para vomitar.

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Ouro de Tolo

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros por mês

Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar um Corcel 73

Eu devia estar alegre e satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa

Eu devia estar sorrindo e orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa

Eu devia estar contente
Por ter conseguido tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado

Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto "e daí?"
Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar
E eu não posso ficar aí parado

Eu devia estar feliz
Pelo Senhor ter me concedido o domingo
Pra ir com a família no Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos

Ah!Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro, jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco

É você olhar no espelho
Se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano ridículo, limitado
Que só usa dez por cento de sua cabeça animal

E você ainda acredita
Que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo com sua parte
Para o nosso belo quadro social

Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar

Porque longe das cercas embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Nietzscheando... (V)

Essas mulheres...
Esse alemão com desejos de expatriação...
Esse quê de psicose que gostaríamos de comprar em cápsulas nas farmácias...

Adoraria colaborar, mas a dosagem de ironia e de constatação fica à mercê de cada um (estou até agora ponderando sobre a minha própria).

"A satisfação consigo protege até mesmo do resfriado. Alguma vez uma mulher que se sabia bem-vestida se resfriou? - Estou supondo que estivesse pouco vestida."

Friedrich Nietzsche - Crepúsculo dos Ídolos

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Sobre varizes e insetos...

Eu poderia citar essa letra inteira, porque ela inteira é deliciosa e dispéptica ao mesmo tempo. E, para não fazer isso - por algum motivo que eu não sei bem -, decidi recortar esse trecho, que me fala em especial. Ora com gosto bom; ora efervescente, sabor abacaxi.

"Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia

Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada"