domingo, 29 de janeiro de 2012

Já ouviu aquela do russo, do francês e do português que queriam ser Napoleão?...

1°, O Russo:
"No presente, uma inquietação vaga e sem objetivos, no futuro, apenas um sacrifício constante com o qual nada conseguiria – eis o que lhe esperava no mundo. [...] De que lhe serviria viver? O que iria ter em vista? Qual seria sua aspiração? Viver por existir? Só que antes ele já estivera milhares de vezes disposto a dedicar toda sua existência a uma idéia, a uma esperança, até a uma fantasia. No entanto, sempre achara pouco existir; sempre quisera mais. Talvez tenha sido só pela força dos seus desejos que então ele se considerou um indivíduo a quem era permitido mais que aos outros. [...] Sofrimentos e lágrimas – ora, isso também é vida. Mas ele não se arrependera do seu crime"
 (Crime e Castigo - Dostoievski)

 2°, o Francês:
"[...] em lugar de retirarse de la lucha, la acepta valiéndose de las únicas armas com que los más inteligentes pueden competir com los más fuertes: la lucidez, la paciencia, el disimulo y la hipocresía"
 (Porto-Bompiani, sobre Julien Sorel)

 3°, o Português:
"Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? / Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! / E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! / Génio? Neste momento / cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu, / e a história não marcará, quem sabe? Nem um, / nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras. / Não, não crei em mim. / Não, não creia em mim. / em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas! / Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? / [...] Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez"
 (Pessoa, como de Campos)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O país da burca de tecido mágico...



No Brasil, o pensamento machista é dominante e arraigado a um ponto em que muitas pessoas nem se dão conta de que ele existe. Até aí nenhuma novidade...

E celebrando a estupidez do povo, na perfeição do estilo Renato Russo, aparece um caso de “estupro ou não-estupro?” num programinha de gosto duvidoso, o BBB 12. Daniel estuprou Monique? Monique estuprou Daniel? O Big Brother estuprou o bom senso? Muitas perguntas no ar, e não me interessa falar em nenhuma dessas questões.

Vou aproveitar a deixa da polêmica do momento para falar sobre uma coisa que há muito me incomoda. Não poucas vezes revolta. Frequentemente choca. Na cultura do nosso país, a mulher que sofre abuso sexual é quase sempre responsabilizada por sua suposta parcela de culpa: sua roupa, o horário em que andava na rua, o fato de não estar acompanhada (de preferência por um homem), o fato de ter bebido umas doses a mais, e por aí vai...

Como é nojento ver homens e mulheres (sim, mulheres!) culpando a vítima pelo estupro! Como se a mulher, pelo simples fato de ser mulher, devesse se privar de fazer o que gosta ou quer para se precaver da animalidade inimputável dos homens-macacos que podem estar à espreita na próxima esquina.

Há culturas em que a mulher, ao ser estuprada, é expulsa da família ou condenada à morte por apedrejamento. A culpa é dela, por ter provocado os instintos do homem com seu corpo “malévolo”.

Aqui no Brasil, nós mulheres, desde muito novas, aprendemos que em nosso país se usa uma burca diferente, feita com o mesmo tecido da roupa do rei: só os inteligentes veem. E vamos cumprindo nossa pena em regime semiaberto, pela inesgotável sentença herdada daquela assanhadinha da Eva, que fodeu com a nossa vida por sabe-se lá quantos séculos mais.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Nietzscheando... (IV)

Para você, que também acordou no porão pensando ser Napoleão:

“(...) Suas virtudes foram proscritas pela sociedade; os instintos mais vivos de que é dotado logo se misturam com os afetos deprimentes, com a suspeita, o medo, a infâmia. Mas isso é praticamente a receita para a degeneração fisiológica. Quem tem que fazer secretamente, com demorada tensão, precaução, astúcia, aquilo que pode fazer melhor e que mais gostaria de fazer, torna-se anêmico; e, porque somente colhe perigo, perseguição, infortúnio de seus instintos, também seu sentimento se volta contra esses instintos – ele os sente de maneira fatalista. É na sociedade, em nossa mansa, mediana, castrada sociedade, que um ser natural, vindo das montanhas ou das aventuras do mar, necessariamente degenera em criminoso.
(...)

Todos os inovadores do espírito têm na fronte, por algum tempo, a lívida e fatalista marca do chandala: não por serem percebidos assim, mas porque eles mesmos sentem o abismo terrível que os separa de tudo o que é tradicional e venerado. Quase todo gênio conhece, como um estágio no seu desenvolvimento, a ‘existência catilinária’, um sentimento de vingança e revolta contra tudo o que já é, que não mais se torna... Catilina – a forma preexistente a todo César”.


Friedrich NietzscheCrepúsculo dos Ídolos.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Esses punks alemães...

Continuando a sessão "Olha só o que eu descobri fuxicando no YouTube atrás de alguma bandinha legal pra manter meus estudos de alemão aquecidos", vejam só esse clipe!
Me digam se não é uma das coisinhas mais toscas que vocês já viram!
É tosquinho, mas é cativante, principalmente para aqueles que apreciam filmes do Quentin Tarantino. Aí sim, é mais do que altamente recomendável.

_ Divirtam-se!
_ Viel Spaß!

;-)

domingo, 1 de janeiro de 2012

Feliz 2000 e doze! e treze, e quatorze...

Receita de ano novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade



(Imagem: http://www.vaaoteatro.blogger.com.br/)