quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Aforismos alineanos V

Dali, fala-se o que se diz.
De lá, ouve-se o que se escuta.
E, nesse interstício,
o oxigênio oxida,
já que só sabe fazer assim.






quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Humanidade X humano...

... dia desses eu conversava com um rapaz ébrio. O rapaz era nitidamente inteligente e, por indícios no que dizia, via-se que tinha um conhecimento de cultura livresca acima do que comumente se vê por aí. Eu conversava meio que sem conversar, com aquela paciência espe(a)cial a que um ébrio desconhecido se faz merecedor. Mas, ao mesmo tempo, esses tais indícios animaram minha curiosidade, e me vinha a vontade de ouvir um pouco mais do que ele dizia.

Como bem prevê um professor meu, a conversa entre dois desconhecidos inevitavelmente envereda pela senda do "onde eu moro", "quando eu era criança" e "meu pai e minha mãe são". Eu poderia, nesse momento, acrescentar o dado por ele fornecido, de que a mãe dele é psicóloga, mas não vou fazer isso para evitar qualquer tentação determinista e clichezenta.

Aí veio aquela frase que eu preferia não ter ouvido: "Vocês, psicólogos, adoram analisar as pessoas, mas detestam as pessoas". Sorriso amarelo. Preferia não ter ouvido, porque, se por um lado ele estava redondamente enganado, por outro, ele estava absolutamente certo. O limite dessa relação sujeito-sujeito ou sujeito-objeto é irreversivelmente impalpável e efêmera. E se vê de tudo: a verdade é essa! 

Chega, então, aquele momento em que o abismo olha para dentro de você¹ e a certeza se esfarela toda. E será que o que eu abomino hoje é o reflexo que vou enxergar no espelho amanhã? E será que se eu olhar, eu vejo? E atualmente, com que olhos eu olho? Boladona em mim mesma, um turbilhão de pensamentos amalgamados me dificultou a respiração e passei dias digerindo essa invasão.

Algum tempo depois, durante a leitura de Os irmãos Karamázov, deparo-me com o seguinte trecho - uma conversa entre uma senhora e um líder religioso (stárietz), ao qual foi consultar em busca de aconselhamento:

“(...)

– É tal qual me dizia um médico, aliás, faz muito tempo – observou o stárietz. – Era um homem já entrado em anos e, sem nenhuma dúvida, inteligente. Falava com a mesma franqueza que a senhora, embora em tom de brincadeira, mas de uma brincadeira dorida; eu, dizia ele, amo a humanidade, mas me admiro de mim mesmo; quanto mais amo a humanidade em geral, menos amo os homens em particular, ou seja, em separado, como pessoas isoladas. Em meus sonhos, dizia ele, não raro chegava a intentos apaixonados de servir à humanidade e é até possível que me deixasse crucificar em benefício dos homens se de repente isso se fizesse de algum modo necessário, mas, não obstante, não consigo passar dois dias com ninguém num quarto, o que sei por experiência. Mal a pessoa se aproxima de mim, e eis que sua personalidade já esmaga meu amor-próprio e tolhe minha liberdade. Em vinte e quatro horas posso odiar até o melhor dos homens: este por demorar muito a almoçar, aquele por estar resfriado e não parar de assoar o nariz. Eu, dizia, viro inimigo das pessoas mal elas roçam em mim. Em compensação, sempre acontecia que quanto mais eu odiava os homens em particular, mais ardente se tornava meu amor pela humanidade em geral.

– Então o que fazer? Neste caso, o que fazer? É preciso cair em desespero?

– Não, porque já basta a sua aflição. Faça o que puder, e isso lhe será creditado. A senhora já fez muito, pois conseguiu compreender a si mesma de forma profunda e sincera (...)” [grifo meu].
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Eu, Aline, agradeço ao stárietz pela redenção, mas prefiro (?) continuar com a angústia de não saber como alguém se torna o que é². E, sabe-se lá por quanto tempo, sigo desperdiçando minha energia ao tentar vigiar o voo da mosca³.
... e não foi feito mesmo para se entender...

***

¹ "Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não se tornar também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você." - Genealogia da moral, F. Nietzsche.
² Ecce Homo: como alguém se torna o que é, F. Nietzsche.
³ "A velocidade é a elegância do pensamento, que troça da imbecilidade, pesada e lenta. A inteligência pensa e diz o inesperado, considera a mosca e seu voo. Um imbecil define-se pela previsibilidade" - Diálogo sobre a ciência, a cultura e o tempo, Michel Serres.

***

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O que parte o coração...

Dia desses eu pensava sobre a música Fidelity, da Regina Spektor, e me perguntava o porquê desse título, uma vez que viver a (minha) vida me ensinou o peso da palavra fidelidade, e como ela pode ser usada de forma mais terrorista do que qualquer tática talibã.
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Imediatamente pensamos na fidelidade que devemos ao outro e tamanho é o peso que ela tem, sendo mais importante do que qualquer medida de felicidade ou satisfação. E ainda que demore um pouco, acaba-se por descobrir que se venera um santo de pés de barro, ou que se tem medo do curupira.
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É na hora em que os mitos se dissipam que percebemos finalmente que a única fidelidade pela qual vale a pena sacrificar tudo é aquela que se deve ter consigo mesmo. Pena que tal clareza de visão seja tão efêmera, tão susceptível às idas e vindas dos medos... Mas não é disso que quero tratar. Voltemos.
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Isso tudo eu pensei a partir dessa música, porque, no final das contas, ela fala justamente de uma auto-fidelidade que se mantém ao longo de toda uma trajetória: o medo de amar; proteger o próprio coração com um arsenal coletado no estar-no-mundo (a ponto de esse arsenal praticamente ganhar voz própria e engolir a subjetividade); a hipótese de não se ter aceitado o risco e em que medida isso respaldaria tragicamente tudo o que foi temido até então; o distrair-se a si mesmo do arrebatamento; o conselho óbvio dos amigos que dizem o que se quer escutar. Em suma: o dilema eterno entre o esmagamento da segurança monocromática e o apetitoso risco da explosão de cores imprevisíveis (e que já vivem em fantasia).
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E a parte que, na minha opinião, é a mais interessante:
"It breaks my heart when it breaks my heart".
É aquela imensa vontade que temos de estarmos errados nas nossas previsões pessimistas; vontade essa tão grande que quase as converte em previsões otimistas. E vêm os fatos rasgar essa fantasia, trazendo um amargo desapontamento por nos termos desapontado, ainda que estivéssemos a par das probabilidades. Isso vale para relacionamentos amorosos, amizades, carreira, família, sonhos, e tudo mais que nos faz nós.
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Nossa auto-fidelidade segue cambaleante nessa corda bamba, equilibrando-se entre a vontade de que dessa vez dê certo, a certeza de que não vai dar, a raiva do próprio determinismo, a vontade de superá-lo, a frustração da susceptibilidade aos acasos, a vontade de crença numa ordem subjacente a tudo, e por aí vai... Nesse pensamento abismal, somos engolidos. Já não sabemos a qual eu de nós queremos ou devemos prestar maior fidelidade.
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Mesmo não sendo mais crianças, estamos sempre esperando que a mágica nos redima da crueza do mundo das objetividades, e ficamos de coração partido quando o mundo insiste em partir nosso coração. Queríamos as cores e as certezas. E queríamos que isso não nos matasse nem de medo, nem de tédio. Eternas crianças de nós mesmos.


terça-feira, 14 de agosto de 2012

"Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti"...

   Hoje eu me peguei pensando sobre a densidade das almas, ou melhor, dos espíritos - simplesmente porque essa palavra me agrada mais pelo uso que dela fazem os franceses.
   E é grande a fortuna daquele que nasce com a riqueza de espírito, que traz em si as múltiplas possibilidades de tudo e a capacidade de se desdobrar e redobrar de um milhão de modos diferentes ao sabor dos ventos do acaso.
   Mas quando digo isso, digo sem nenhuma certeza. Porque esse espírito de incontáveis camadas e dobras é denso e, em casos não raros, pesa, como se devesse obrigações às leis da física, assim como o deve essa minha analogia de improviso.
   E a grande fortuna se contrapõe à noção de boa fortuna. Na dança dos afixos, o espírito fica com cor de infortúnio, e não voa, mas se arrasta, e derrapa, e deixa-se enlear em senãos e poréns que, acumulados, são obstáculo invencível.
   Como consequência quase certa vem o atrapalhar-se em si mesmo e a sensação de não estar nunca em lugar nenhum, nem naquele em que o satélite diz que se está; nem naquele do qual a fotografia é evidência. Não se está em lugar nenhum porque não há saída ou desvio da barulheira que ensurdece de dentro para fora.
   É o páthos da vida poema-em-prosa daquele que não dá conta de si; muito menos de si no mundo.
   E para fechar esse pensamento, cito Dostoiévski, como quem aponta sem dedo:

"[...] não só o excêntrico nem sempre é uma particularidade e um caso isolado, como, ao contrário, vez por outra acontece de ser justo ele, talvez, que traz em si a medula do todo, enquanto os demais viventes de sua época - todos, movidos por algum vento estranho, dele estão temporariamente afastados sabe-se lá por que razão".
F. Dostoiévski - Os irmãos Karamázov
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"Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti" 
Álvaro de Campos - A passagem das horas.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Nietzscheando (VI)...


Hoje vamos, com Nietzsche, nos indagar sobre a possibilidade de domesticação do homem.
É interessante notar que, nessa linha de raciocínio, pode-se substituir a ação exercida pela Igreja por algum outro pseudópodo de alguma outra Instituição Total* que lhe convier.
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“(...) Sempre se quis ‘melhorar’ os homens: sobretudo a isso chamava-se moral. Mas sob a mesma palavra se escondem as tendências mais diversas. Tanto o amansamento da besta-homem como o cultivo de uma determinada espécie de homem foram chamados de ‘melhora’: somente esses termos zoológicos exprimem realidades – realidades, é certo, das quais o típico ‘melhorador’, o sacerdote, nada sabe – nada quer saber... Chamar a domesticação de um animal sua ‘melhora’ é, a nossos ouvidos, quase uma piada. Quem sabe o que acontece nas ménageries duvida que a besta seja ali ‘melhorada’. Ela é enfraquecida, tornada menos nociva; mediante o depressivo afeto do medo, mediante dor, fome, feridas, ela se torna uma besta doentia. – Não é diferente com o homem domado, que o sacerdote ‘melhorou’. Na Alta Idade Média, quando, de fato, a Igreja era sobretudo uma ménagerie, os mais belos exemplares da ‘besta loura’ eram caçados em toda parte – foram ‘melhorados’, por exemplo, os nobres germanos. Mas que aparência tinha depois esse germano ‘melhorado’, conquistado para o claustro? A de uma caricatura de homem, de um aborto: tornara-se um ‘pecador’, estava numa jaula, tinham-no encerrado entre conceitos terríveis... Ali jazia ele, doente, miserável, malevolente consigo mesmo; cheio de ódio para com os impulsos à vida, cheio de suspeita de tudo que ainda era forte e feliz. Em suma, um ‘cristão’... Em termos fisiológicos: na luta contra a besta, tornar doente pode ser o único meio de enfraquecê-la. Isso compreendeu a Igreja: ela estragou o ser humano, ela o debilitou – mas reivindicou tê-lo ‘melhorado’...”.
- Crepúsculo dos Ídolos - VII, 2.
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*cf. GOFFMAN, E. Manicômios, prisões e conventos.

terça-feira, 31 de julho de 2012

terça-feira, 17 de julho de 2012

A quase-revelação do deus quebra-galho...

Estava eu assistindo a esse filme, chamado "Fogueira", alugado ao acaso, numa daquelas idas à locadora em que você não faz ideia do que quer assistir e resolve ir à estante de filmes chamados "cult" para sortear algo para ver.
Lá pela reta final do filme eu me deparo com essa fala do personagem Yossi, explicando à adolescente Tami por que ele nunca se casou e acreditava que nunca se casaria na vida:
"Deus não quer que certas pessoas casem para não se reproduzirem. Então ele estraga algo em suas personalidades. Algo pequeno, que você não percebe de início. Mas essa coisa faz elas serem solitárias".
A gente vê um diálogo desses e pensa "se a explicação fosse tão simples...". Mas o recurso do Deus ex machina é sempre bem-vindo para essa nossa vidinha mundana sem pé nem cabeça. Sorte de quem se satisfaz.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Aforismos alineanos IV

... até que um dia você se dá conta de que essa "desesperofilia", tão pesada e tão debilitante, é fruto, ela mesma, de aprendizado.
A partir daí, passa a caber na mão (a maior parte do tempo).
Assombrações de estimação.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Nietzscheando e Foucaulteando...


"O princípio da interpretação não é mais do que o intérprete, e este é talvez o sentido que Nietzsche deu à palavra 'Psicologia'".


- Foucault, M. In: Nietzsche, Freud e Marx.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Momento "Professorinha de português"...


Pois é, minha gente.
Tem gente que está caprichando tanto na hora de falar que acaba falando errado.
Se liga:
Os verbos TER e HAVER no sentido de EXISTIR são impessoais, logo, não são flexionados em número, isto é, não vão para o plural, bem como seus auxiliares.
Logo, está gramaticalmente errado dizer:

-Tiveram/houveram ocasiões
- Podem ter/haver consequências
- Devem ter/haver soluções
- Terão/haverão reuniões

e assim por diante.
#FicaDica para o pessoal que se esforça para caprichar.
;)

terça-feira, 12 de junho de 2012

Aforismos alineanos III

E afinal:
Qual é a diferença entre cair no sono e cair na morte para aquele que cai?


terça-feira, 29 de maio de 2012

Tudo em greve, exceto o senso crítico...

Uma breve opinião MINHA sobre a GREVE ESTUDANTIL nas UNIVERSIDADES FEDERAIS:

A mobilização dos estudantes é ESSENCIAL.
Desqualificar o movimento estudantil tachando-o de um revolucionismo fajuto é um meio pobre e demagógico de esvaziar qualquer mobilização que venha desse grupo. É um método fascitalóide de usar o discurso para mortificar a luta daqueles que sabem melhor do que ninguém o que é o cotidiano de uma instituição de ensino que é pública na exata medida para inglês ver.
Desmerecer um discurso baseando-se naquilo que alguém é ou na posição em que está é um meio ardiloso de anular quaquer fala, qualquer reivindicação e qualquer contestação que daí venham, ou seja, invalida de antemão até o que ainda nem foi dito.
Isso é repugnante.
Isso vem disfarçado de verdade acessível a poucos.
Isso é muito grave.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Aforismos alineanos I

O pior é que há MESMO pessoas e/ou situações que são capazes de matar uma parte sua.
Infelizmente isso não é uma invenção de Hollywood.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Vai um shot de cicuta?...

A Morte de Sócrates (Jacques-Louis David, 1787)


     E, para quem não sabe rir e que gosta de viver a vida imerso em amargura e rancor - ou só sabe assim vivê-la -, ofereço meu (sor)riso, minha risada, uma escarnecida enviesada, feito picada de pulga. 
     Para aqueles que se aprazem com o mal-estar alheio e que chafurdam no narcisismo e orgulho excessivos, ergo meu copo e ofereço um brinde!
     Um shot de cicuta, com açúcar e com afeto, em louvor a vossa incomensurável escrotice!

“(...) Ser espirituoso é poder, em alguma medida, libertar-se, sempre de modo obtuso, mas de forma absurdamente justificável, daí o riso. Quando votado ao riso, a justificativa pelo absurdo é a saída do espírito.
   Quando transitamos com tranquilidade pelos meandros impróprios de uma expressão que se atreve a contestar o óbvio, e insistir em enunciar o absurdo e o ridículo na dissimulação consciente de que estamos imersos no absurdo; mas que esse é o nosso mote de sobrevivência em uma realidade absurda, e que estar preso na mesma não merece mais do que nosso desprezo, mesmo que este possa brilhar por um único instante no beco sem saída de tal determinação: aí podemos abrir-nos para o riso: ínfimo na sua cronologia, mas eterno na memória que ensina, aos que virão, a abrir algumas brechas para o prazer, mesmo que sem corpo, sem o crivo do possível, mesmo que em espírito. O espírito possui esta virtude, a de corporificar o improvável. Como já disse, ele é sopro, ele inspira, vivifica.”

(A. Facioli – A ironia, considerações filosóficas e psicológicas, Ed. Juruá)

*Grifos MEUS, e muito MEUS.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Atendendo aos últimos desejos...

Hoje é dia de ouvir Noel Rosa e sentir aquela pontada na alma que deixa a gente desnorteado em si mesmo, sem saber direito para onde olhar, para onde ir. Meio helpless-sem-tradução.


Último Desejo 

Nosso amor que eu não esqueço
E que teve o seu começo
Numa festa de São João
Morre hoje sem foguete
Sem retrato e sem bilhete
Sem luar, sem violão
Perto de você me calo
Tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero o seu beijo
Mas meu último desejo
Você não pode negar
Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação
Às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é o botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Raul e Campos em lição peripatética...

E então eu penso que fazer uma boa leitura das coisas também significa - e muito - a capacidade de lermos as coisas que se leem, independente de acordo espaço-temporal, porque isso é pré-requisito de ciência experimental.

Eu, que gosto à beça de Fernando Pessoa, principalmente quando cavalo de Álvaro de Campos, cheguei a ter palpitações quando me dei conta dessa leitura poética-musical, que já ia à deriva há tantos anos na minha memória, sem nunca aportar e se pronunciar.

Eu já tinha publicado isso aqui, mas nos longíquos anos de 2009, quando eu ainda não queria mostrar o que eu escrevia. Agora que as coisas andam diferentes, decidi soprar a poeira desse post e deixá-lo arejar e tomar um pouco de sol. E faço isso por amor à música-poesia, que é só como eu sei viver.

Eis o encontro:

Vilegiatura

O sossego da noite, na vilegiatura no alto;
O sossego, que mais aprofunda
O ladrar esparso dos cães de guarda na noite;
O silêncio, que mais se acentua,
Porque zumbe ou murmura uma coisa nenhuma no escuro ...

Ah, a opressão de tudo isto!
Oprime como ser feliz!
Que vida idílica, se fosse outra pessoa que a tivesse
Com o zumbido ou murmúrio monótono de nada
Sob o céu sardento de estrelas,
Com o ladrar dos cães polvilhando o sossego de tudo!

Vim para aqui repousar,
Mas esqueci-me de me deixar lá em casa,
Trouxe comigo o espinho essencial de ser consciente,
A vaga náusea, a doença incerta, de me sentir.

Sempre esta inquietação mordida aos bocados
Como pão ralo escuro, que se esfarela caindo.
Sempre este mal-estar tomado aos maus haustos
Como um vinho de bêbado quando nem a náusea obsta.

Sempre, sempre, sempre
Este defeito da circulação na própria alma,
Esta lipotimia das sensações,
Isto...
(Tuas mãos esguias, um pouco pálidas, um pouco minhas,
Estavam naquele dia quietas pelo teu regaço de sentada,
Como e onde a tesoira e o ideal de uma outra.
Cismavas, olhando-me, como se eu fosse o espaço.
Recordo para ter em que pensar, sem pensar.
De repente, num meio suspiro, interrompeste o que estavas sendo.
Olhaste conscientemente para mim, e disseste:
"Tenho pena que todos os dias não sejam assim" —
Assim, como aquele dia que não fora nada ...

Ah, não sabias,
Felizmente não sabias,
Que a pena é todos os dias serem assim, assim:
Que o mal é que, feliz ou infeliz,
A alma goza ou sofre o íntimo tédio de tudo,
Consciente ou inconscientemente,
Pensando ou por pensar
Que a pena é essa ...
Lembro fotograficamente as tuas mãos paradas,
Molemente estendidas.
Lembro-me, neste momento, mais delas do que de ti.
Que será feito de ti?
Sei que, no formidável algures da vida,
Casaste.
Creio que és mãe.
Deves ser feliz.
Por que o não haverias de ser?
Só por maldade...
Sim, seria injusto...
Injusto?
(Era um dia de sol pelos campos e eu dormitava, sorrindo.)

... ... ...

A vida...
Branco ou tinto, é o mesmo: é para vomitar.

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Ouro de Tolo

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros por mês

Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar um Corcel 73

Eu devia estar alegre e satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa

Eu devia estar sorrindo e orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa

Eu devia estar contente
Por ter conseguido tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado

Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto "e daí?"
Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar
E eu não posso ficar aí parado

Eu devia estar feliz
Pelo Senhor ter me concedido o domingo
Pra ir com a família no Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos

Ah!Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro, jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco

É você olhar no espelho
Se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano ridículo, limitado
Que só usa dez por cento de sua cabeça animal

E você ainda acredita
Que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo com sua parte
Para o nosso belo quadro social

Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar

Porque longe das cercas embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Nietzscheando... (V)

Essas mulheres...
Esse alemão com desejos de expatriação...
Esse quê de psicose que gostaríamos de comprar em cápsulas nas farmácias...

Adoraria colaborar, mas a dosagem de ironia e de constatação fica à mercê de cada um (estou até agora ponderando sobre a minha própria).

"A satisfação consigo protege até mesmo do resfriado. Alguma vez uma mulher que se sabia bem-vestida se resfriou? - Estou supondo que estivesse pouco vestida."

Friedrich Nietzsche - Crepúsculo dos Ídolos

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Sobre varizes e insetos...

Eu poderia citar essa letra inteira, porque ela inteira é deliciosa e dispéptica ao mesmo tempo. E, para não fazer isso - por algum motivo que eu não sei bem -, decidi recortar esse trecho, que me fala em especial. Ora com gosto bom; ora efervescente, sabor abacaxi.

"Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia

Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada"

domingo, 29 de janeiro de 2012

Já ouviu aquela do russo, do francês e do português que queriam ser Napoleão?...

1°, O Russo:
"No presente, uma inquietação vaga e sem objetivos, no futuro, apenas um sacrifício constante com o qual nada conseguiria – eis o que lhe esperava no mundo. [...] De que lhe serviria viver? O que iria ter em vista? Qual seria sua aspiração? Viver por existir? Só que antes ele já estivera milhares de vezes disposto a dedicar toda sua existência a uma idéia, a uma esperança, até a uma fantasia. No entanto, sempre achara pouco existir; sempre quisera mais. Talvez tenha sido só pela força dos seus desejos que então ele se considerou um indivíduo a quem era permitido mais que aos outros. [...] Sofrimentos e lágrimas – ora, isso também é vida. Mas ele não se arrependera do seu crime"
 (Crime e Castigo - Dostoievski)

 2°, o Francês:
"[...] em lugar de retirarse de la lucha, la acepta valiéndose de las únicas armas com que los más inteligentes pueden competir com los más fuertes: la lucidez, la paciencia, el disimulo y la hipocresía"
 (Porto-Bompiani, sobre Julien Sorel)

 3°, o Português:
"Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? / Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! / E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! / Génio? Neste momento / cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu, / e a história não marcará, quem sabe? Nem um, / nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras. / Não, não crei em mim. / Não, não creia em mim. / em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas! / Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? / [...] Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez"
 (Pessoa, como de Campos)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O país da burca de tecido mágico...



No Brasil, o pensamento machista é dominante e arraigado a um ponto em que muitas pessoas nem se dão conta de que ele existe. Até aí nenhuma novidade...

E celebrando a estupidez do povo, na perfeição do estilo Renato Russo, aparece um caso de “estupro ou não-estupro?” num programinha de gosto duvidoso, o BBB 12. Daniel estuprou Monique? Monique estuprou Daniel? O Big Brother estuprou o bom senso? Muitas perguntas no ar, e não me interessa falar em nenhuma dessas questões.

Vou aproveitar a deixa da polêmica do momento para falar sobre uma coisa que há muito me incomoda. Não poucas vezes revolta. Frequentemente choca. Na cultura do nosso país, a mulher que sofre abuso sexual é quase sempre responsabilizada por sua suposta parcela de culpa: sua roupa, o horário em que andava na rua, o fato de não estar acompanhada (de preferência por um homem), o fato de ter bebido umas doses a mais, e por aí vai...

Como é nojento ver homens e mulheres (sim, mulheres!) culpando a vítima pelo estupro! Como se a mulher, pelo simples fato de ser mulher, devesse se privar de fazer o que gosta ou quer para se precaver da animalidade inimputável dos homens-macacos que podem estar à espreita na próxima esquina.

Há culturas em que a mulher, ao ser estuprada, é expulsa da família ou condenada à morte por apedrejamento. A culpa é dela, por ter provocado os instintos do homem com seu corpo “malévolo”.

Aqui no Brasil, nós mulheres, desde muito novas, aprendemos que em nosso país se usa uma burca diferente, feita com o mesmo tecido da roupa do rei: só os inteligentes veem. E vamos cumprindo nossa pena em regime semiaberto, pela inesgotável sentença herdada daquela assanhadinha da Eva, que fodeu com a nossa vida por sabe-se lá quantos séculos mais.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Nietzscheando... (IV)

Para você, que também acordou no porão pensando ser Napoleão:

“(...) Suas virtudes foram proscritas pela sociedade; os instintos mais vivos de que é dotado logo se misturam com os afetos deprimentes, com a suspeita, o medo, a infâmia. Mas isso é praticamente a receita para a degeneração fisiológica. Quem tem que fazer secretamente, com demorada tensão, precaução, astúcia, aquilo que pode fazer melhor e que mais gostaria de fazer, torna-se anêmico; e, porque somente colhe perigo, perseguição, infortúnio de seus instintos, também seu sentimento se volta contra esses instintos – ele os sente de maneira fatalista. É na sociedade, em nossa mansa, mediana, castrada sociedade, que um ser natural, vindo das montanhas ou das aventuras do mar, necessariamente degenera em criminoso.
(...)

Todos os inovadores do espírito têm na fronte, por algum tempo, a lívida e fatalista marca do chandala: não por serem percebidos assim, mas porque eles mesmos sentem o abismo terrível que os separa de tudo o que é tradicional e venerado. Quase todo gênio conhece, como um estágio no seu desenvolvimento, a ‘existência catilinária’, um sentimento de vingança e revolta contra tudo o que já é, que não mais se torna... Catilina – a forma preexistente a todo César”.


Friedrich NietzscheCrepúsculo dos Ídolos.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Esses punks alemães...

Continuando a sessão "Olha só o que eu descobri fuxicando no YouTube atrás de alguma bandinha legal pra manter meus estudos de alemão aquecidos", vejam só esse clipe!
Me digam se não é uma das coisinhas mais toscas que vocês já viram!
É tosquinho, mas é cativante, principalmente para aqueles que apreciam filmes do Quentin Tarantino. Aí sim, é mais do que altamente recomendável.

_ Divirtam-se!
_ Viel Spaß!

;-)

domingo, 1 de janeiro de 2012

Feliz 2000 e doze! e treze, e quatorze...

Receita de ano novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade



(Imagem: http://www.vaaoteatro.blogger.com.br/)